JÉSSICA JONES NÃO É SOBRE ABUSO.

Atenção: o texto a seguir contém palavras fortes, é um rascunho de um outro mais profundo que vou publicar aqui no blog e deve ser lido com todos os filtros que você possuir ou talvez você devesse se despir de todos os seus pré-conceitos.

Sim, eu não acho que JÉSSICA JONES seja uma série cujo foco é o abuso sexual ou a mesmo sobre violência ou assédio moral.

Penso que tais temas são usados como pano de fundo para construir a personalidade da personagem e até mesmo explicar ou justificar muitas de suas atitudes, mas com certeza não vejo que isso se aplique ao alcoolismo ou mesmo à sua dificuldade de se relacionar com as pessoas, exceção ao fato de ela ter dificuldades ou resistir à ideia de se envolver emocionalmente com alguém, como parece ocorrer em relação ao Luke Cage.

Na série não fica explicita a cronologia dos eventos na vida de Jéssica e como a série é produzia para quem não conhece a personagem, esse conhecimento prévio não pode ser exigido do espectador, de forma que temos que lidar com as informações que temos disponíveis.

Os episódios deixam claro que Jéssica é uma pessoa com habilidades que a tornam uma espécie de “super-humana” com força e agilidade muito acima da média.

Fica claro ainda, que Jéssica foi vítima de outro “super-humano”, chamado KillGrave cuja principal habilidade é controlar a mente das pessoas e obriga-las a fazer o que ele desejar (ou satisfazer todos os seus desejos).  

Então especificamente sobre a questão do álcool, assim como o uso e o abuso de outras drogas e medicamentos, me parece claro que isso já faz parte do cotidiano do povo americano de modo geral e nenhuma relação tem com os abusos sofrido por Jéssica.

Retomado a questão dos relacionamentos afetivos, a série deixa explícito que o vilão obrigou a Jéssica a matar uma mulher que era sua esposa e justamente por isso Jéssica evita se envolver emocionalmente com outras pessoas.

Porém o fato de Jéssica não ter amigos parece muito mais ligo à sua personalidade do que aos abusos sofrido. Em uma das cenas Jéssica está trabalhando em um escritório de uma grande empresa e usa suas habilidades para descobrir desvios de veras praticados por seu chefe e usa tais informações para chantagea-lo e fazer com que ele lhe demita sem justa causa e lhe pague seis meses de salário juntamente com uma carta de recomendação.

Então parece ficar claro que os padrões morais de Jéssica Jones nunca foram muito compatíveis com a moralidade média da sociedade americana, razão pela qual podemos afirmar no máximo que os abusos que Jéssica sofreu teriam, no máximo, potencializado tendências e preferências pré-existentes na personagem.

O que mais me pareceu é que Jéssica luta contra a possibilidade de ter gostado de fazer as coisas que foi obrigada fazer e não estou falando aqui de qualquer tipo de conduta de natureza ou conotação sexual, estou falando sim de atos de agressão e violência.

E é bom abrir um enorme parêntese para dizer que também fica explícito na série o fato de que Jéssica Jones é uma mulher dos dias de hoje, que lida muito bem com seus desejos e sua sexualidade, sem falsos pudores ou preconceitos, decidida e que sabe conseguir o que deseja quando o assunto é sexualidade. Tal situação é muito bem descrita nos “encontros” que Jéssica mantém com Luke Cage, onde fica claro que é ela quem domina toda a situação e não contrário.

Mas se a série JÉSSICA JONES não é sobre abuso, então seria sobre o QUÊ ?

JÉSSICA JONES é uma série que fala sobre a Teoria do Domínio do Fato, ou seja, fala sobre a questão dos limite de se imputar condutas às pessoas. Sendo mais específico, o tema central da série é sobre “QUEM QUIS FAZER O QUÊ E QUAL É  A CULPA (OU DOLO) DE QUEM” e isso fica explícito em diversos diálogos onde a frase “NÃO FOI SUA CULPA”.